terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Leiamos textos literários [4]

A Queimada

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupa suja
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia
[a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos : more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados,os rascunhos, as variantes
[e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Esse poema foi escrito por Lêdo Ivo e pode ser encontrado na obra "Curral De Peixe" de mil novecentos e noventa e cinco.

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