domingo, 5 de fevereiro de 2012

Leiamos o poema e a música [3]

Imperador Da Ralé

Imperador da ralé
Compadre Chico Bacharel
Cordão, pulseira e boné
Sorriso manso, olhar cruel

Devoto do candomblé
Compadre, santo coração
É homem de muita fé
Só mata quando tem razão

Vai, pisa leve, mané
Que aqui no morro ele é doutor
Reza mandinga de fé
É macumbeiro professor

Só tem paixão por mulher
Se é moça pura ou moça flor
Se é parideira não quer
Se é complicada tem horror
Respeita freira e pajé
Mas tem pavor de cobrador

Arruma as coisas, mané
E pula fora desse andor
Se Chico pega no pé
Não tem paixão, não tem amor
Não sobra nada de pé
Não sobra nada do senhor

É homem de decisão
Estrategista de má-fé
Armado por precaução
Não gasta chumbo em pangaré

Compadre é calmo que só
Escuta muito, fala não
Tem paciência de Jó
Só não perdoa traição

Toma cuidado, mané
Que Chico pode se zangar
Escuta a voz da ralé
Respeita o dono do lugar

Chegado no arrasta-pé
Compadre Chico é bom demais
Requebra e quebra a mulher
No dois pra frente e dois pra trás
Se é moça certa ele quer
Se fala muito não quer mais

Arruma as coisas, mané
E pula fora desse andor
Se Chico pega no pé
Não tem paixão, não tem amor
Não sobra nada de pé
Não sobra nada do senhor




Poema e música por Mario Gil e Zeca Ferreira ( no álbum "Comunhão" de 2007).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Leiamos o poeta e o poema [1]

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?



O poema "Traduzir-se" foi escrito por Ferreira Gullar (no vídeo, recitando-a).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Leiamos textos literários [5]

O Paraíso Democrático

É conhecida a história do besouro. Uma comissão de técnicos em aerodinâmica, aviões e foguetes espaciais, examinou, com equipamento sofisticado, de última geração, as possibilidades de um besouro voar. E concluiu pela impossibilidade estrutural e operacional: besouro não pode voar.

No entanto, desde que existem na face da Terra, os besouros voam, aparentemente sem muito esforço.

Dos besouros passo para a democracia como instituição política, econômica e social.

Analisada com isenção e bom conhecimento histórico, é a melhor forma que a humanidade encontrou para se governar e agir, tanto no setor público como na vida particular de cada cidadão.

A democracia é como o besouro, mas às avessas. É perfeita, tem todos os equipamentos necessários para gerir a humanidade, criando condições de liberdade, paz e prosperidade. Devia voar ou funcionar, tornando as nações mais perfeitas e justas.

Ela não é nem pode ser questionada. A alternativa seria a ditadura, a tirania.

Aristóteles garantiu que a afirmação de uma coisa não significa a negação de outra. Cara e coroa são faces da mesma moeda.

Para citar Nelson Rodrigues, até as cotias do Campo de Santana conhecem os crimes e aberrações dos regimes totalitários.

A Primavera Árabe tem sido saudada como a nova idade de ouro para a humanidade.

Tanques e canhões do mundo livre formam a corte celestial de justiça e liberdade.

Ouvi um discurso de Obama, já em campanha para a reeleição. Tudo o que disse sobre os problemas que enfrenta e as soluções que propõe poderia ser dito pelos sobas, ditadores e líderes de povos subdesenvolvidos: corrupção, violência e injustiça social no país que é considerado o mais democrático do mundo.


Carlos Heitor Cony

Folha de S. Paulo - Opinião - São Paulo, terça-feira, 31 de janeiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Leiamos textos literários [4]

A Queimada

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupa suja
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia
[a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos : more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados,os rascunhos, as variantes
[e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Esse poema foi escrito por Lêdo Ivo e pode ser encontrado na obra "Curral De Peixe" de mil novecentos e noventa e cinco.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Leiamos textos literários [3]

Flores Secas Do Cerrado

Há pessoas que falam menos que um papagaio, mas em Brasília até as paredes emitem estalos suspeitos. Silêncio, mesmo, só na lonjura, no cerrado original. Na parede do quarto do hotel observo um origami com dobras geométricas. Da janela posso ver árvores desfolhadas com galhos retorcidos, o gramado marrom, o horizonte queimado pela seca de setembro. No centro da paisagem calcinada, a praça dos Três Poderes... Dizem que a nova Biblioteca de Brasília foi inaugurada sem livros. Será uma metáfora da cabeça de tantos políticos? Ou do tempo em que vivemos?

A arrumadeira é uma mulher de Minas; o recepcionista, um rapaz pernambucano, um dos ajudantes do chef de cozinha, baiano. O Brasil todo está aqui, e esse Brasil de verdade parece ausente nas esculturas côncava e convexa do Congresso Nacional. Cada vez que entro no elevador minha cabeça se enche de sons de pássaros. Cantam e não aparecem: onde estão? Não há pássaros nas imagens do Pantanal e da Amazônia coladas nas paredes do elevador panorâmico. Mas quando subo ou desço 17 andares, sou obrigado a ouvir trinados metálicos na caixa de vidro e aço. Lembro do conto “Paolo Uccelo”, do escritor francês Marcel Schwob. O genial artista florentino do Quattrocento era obcecado por pássaros, pela geometria e pela perspectiva. Uccello queria entender o mundo (o espaço) em profundidade. As paredes de seu ateliê eram cobertas de pássaros pintados por Uccello, daí seu apelido e o título do conto de Schwob. Mas a vida não é imaginária, nem sempre é, sobretudo quando o elevador pára no térreo e o cronista se senta à mesa do café da manhã e ouve pedaços de conversas indiscretas:

– Volto na próxima semana por causa do resultado da licitação...

– Acertei com o senador, só falta...

– Consegui marcar uma audiência, agora vai ser mais fácil...

A mulher de Minas ganha menos de dois salários (mínimos) e mora em Samambaia, uma das favelas do Distrito Federal. Na época em que morei em Brasília ninguém dizia favela, e sim cidade-satélite. Esse eufemismo urbano ainda persiste, mas tende a desaparecer e sumir de vez. O plano piloto da nova capital foi construído sob o signo da miséria brasileira: os candangos pobres, operários, artesãos e desempregados migraram de todos os quadrantes e foram morar na periferia da cidade-monumento projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Como seria o Brasil ou Brasília se não houvesse existido o golpe militar e 25 anos de ditadura? Sem essa noite longa e infame, o país teria avançado socialmente? Haveria tanta miséria? A educação pública de qualidade – um sonho obstinado de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro – seria melhor? Creio que sim. A interrupção da democracia foi um desastre, o toque militar de recolher, um retrocesso.

O ajudante do chef de cozinha ganha mais do que a mulher de Minas e mora em Sobradinho.

– Se eu não comesse no hotel, passaria fome. Meus dois meninos são filhos da Capital.

Gêmeos da era Collor, vieram ao mundo durante um pesadelo político. Sobradinho. Nunca me esqueci das cidades-satélites, para onde íamos pichar muros com slogans contra a censura e a brutalidade. Por onde andam meus amigos daquela época? Zé Wilson, o Cuca, viajou ainda jovem para o outro lado do espelho, nem me deu adeus. Ainda me lembro do entusiasmo com que comentava os clássicos; lia tudo e nos olhava por trás de lentes grossas no rosto de criança. Chico dos Anjos, filho do escritor Cyro dos Anjos, também partiu antes do tempo. Disse ao Chico que O amanuense Belmiro era um belo romance. Como os mineiros escrevem bem, de dar inveja, acrescentei. Percebi uma ponta de orgulho no olhar do meu amigo. Depois ele deu uma gargalhada. O Chico ria quando todos ficavam sérios, não era tempo de risadas, mas ele tinha humor, e um astral na lua.

Nada era muito asséptico em Brasília, uma cidade embrionária, capital pequena. E vigiada. Poucos homens usavam terno e gravata, uma poeira vermelha cobria as super-quadras, manchava as fachadas dos ministérios, a catedral então inacabada, o Palácio do Planalto. O outro, da Alvorada, também avermelhava. Barro subversivo, os milicos diziam ou deviam dizer. Barro maldito. Até o barro primordial era comunista. O setor hoteleiro era acanhado, lembro das duas noites em que dormi no hotel das Nações, noites de angústia, meu coração moído de saudades do Norte. Depois fui morar num dos quartos de uma casa na avenida W-3 Sul. Aluguel barato de uma pensão informal. Uma família de negros, o pai era um mestre-de-obras baiano, candango de primeira mão. Hotel das Nações, inaugurado em 1962. Que belo nome para uma nação esperançosa, antes do desespero. As casas da W-3 já estão desfiguradas. Tinham um pátio nos fundos, que podia ser um quintal. Duas crianças brincavam de cabra-cega ao redor da pitangueira, e um dia ganhei de uma delas um punhado de frutas e comecei a gostar de Brasília. Agora os pátios foram cobertos por puxadinhos, ocupados por quartos amontoados, coisa de cortiço. As famílias cresceram, a renda caiu, os proprietários alugam os fundos da casa. Nem Brasília, planejada e construída com capricho, resistiu ao caos urbano arquitetônico. A miséria e suas favelas cercam os três poderes da república, o medo e a violência de ontem voltaram com outra feição. Chico dos Anjos, Cuca, vocês não viram isso. João Luiz Lafetá, crítico fino e sofisticado, você morou em Brasília naquela época e também partiu sem ver o país subtraído de uma esperança teimosa, tão brasileira. João Alexandre Barbosa, outro amigo, crítico dos mais eruditos, também nos deixou. João Alexandre pediu demissão da Universidade de Brasília quando dezenas de professores foram expulsos dessa instituição no fim da década de 60. Ele continuou sua carreira docente na USP, mas a UnB resistiu, sobreviveu. Penso em vocês enquanto escuto trinados metálicos de pássaros ausentes. Dezessete andares em trinta segundos. Melhor caminhar a esmo, rever Brasília no escuro, de madrugada. Saio da jaula de aço e vidro e vejo na recepção duas mulheres falsamente louras que conversam com lobistas e sentam em poltronas forradas de couro; elas pedem uísque, devem ganhar numa noite o que a mulher de Minas ganha por mês, e o parceiro lobista ganhará mais do que todas as prostitutas e outras mulheres trabalhadoras ganhariam em dez anos de labuta.

O origami na parede não me diz nada, é mais um ornato num quarto de hotel que poderia estar nas Filipinas, na Holanda ou na África do Sul. Faço uma viagem à deriva pelo cerrado, quero encontrar um lugar do passado, o Poço Azul, onde me refugiava do medo e dos homens. É uma viagem no tempo. Aqui há pássaros de verdade, posso encontrar o repouso do pesadelo, o sono da solidão e a memória de um desejo apagado por décadas. A paisagem é bela e áspera: árvores anãs com galhos retorcidos, braços tortos de seres vegetais, trágicos. Aqui o passado não lanha meu corpo nem minha alma, posso colher flores secas do cerrado e escrever esta crônica de amor a uma cidade que não sai de mim.

Esse texto foi escrito por Milton Hatoum.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Leiamos quadrinhos [2]



O nome do autor e o local de publicação vocês podem ler lá em cima, bem no alto ... =]

sábado, 28 de janeiro de 2012

Leiamos imagens [4]

Primavera



Tarsila Do Amaral pintou esse quadro em 1946. Óleo sobre tela, em 75 x 100 cm. No momento, pertence a uma coleção particular e só podemos ver a imagem do quadro porque o Romulo Fialdini nos tirou uma foto.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Leiamos a foto e sua história [1]

Ódio revisitado




"O flagrante orbitou pelo mundo.
E o rosto de uma adolescente de 15 anos
tornou-se a imagem oficial da intolerância
racial na América"

Nada mais fugidio e elusivo do que o “momento decisivo” perseguido e fotografado por Henri Cartier-Bresson ao longo da vida – aquele que define a essência de uma situação. Não raro, esse instante se apresenta sem avisar. Com frequência, sequer é percebido por quem o captou.

Cinquenta e quatro anos atrás, um jovem fotógrafo do Arkansas Democrat conseguiu encapsular um desses momentos com sua primeira Nikon S2, máquina da era pré-digital. Carregou a máquina com um filme Kodak Plus X, ótimo para manhãs ensolaradas de final de verão, e foi cobrir o primeiro dia de aula de um grupo de estudantes negros na maior e melhor escola média de Little Rock. Esse pedaço de história ficou gravado no negativo de número 15.

Eram apenas nove os jovens negros selecionados pela direção do principal colégio da cidade, o Central High School, para cumprir a ordem judicial de integração racial no país. Segundo David Margolick, autor do recém-publicado Elizabeth and Hazel: Two Women of Little Rock (ainda inédito no Brasil), a peneira foi cautelosa. A busca se concentrou em colegiais que moravam perto da escola, tinham rendimento acadêmico ótimo, eram fortes o bastante para sobreviver à provação, dóceis o bastante para não chamar a atenção e estoicos o suficiente para não revidar a agressões. Como conjunto, também deveria ser esquálido, para minimizar a objeção dos 2 mil estudantes brancos que os afrontariam.

Assim nasceu o grupo que entraria na história dos direitos civis americanos como “Os Nove de Little Rock”. Eram todos adolescentes bem-comportados, com sólidos laços familiares, filhos de funcionários públicos e integrantes da ainda incipiente classe média negra sulista. Entre eles, a reservada Elizabeth Eckford, de 15 anos.

Os pais dos nove pioneiros foram instruídos a não acompanharem os filhos naquele 4 de setembro de 1957, pois as autoridades temiam que a presença de negros adultos inflamasse ainda mais os ânimos. Por isso, os escolhidos agruparam-se na casa de uma ativista dos direitos civis e de lá seguiram juntos para o grande teste de suas vidas. Menos Elizabeth, que não recebera o aviso para se encontrar com os demais e partiu sozinha rumo a seu destino.

De longe ela avistou a massa de alunos brancos passando desimpedidos pelo cordão de isolamento montado pela Guarda Nacional do Arkansas. Ao tentar fazer o mesmo, foi barrada por três soldados que ergueram seus rifles. Elizabeth recuou, procurou passar pela barreira de soldados em outro lugar da caminhada e a cena se repetiu. Alguém, de longe, gritou “Não a deixem entrar” e uma pequena multidão começou a se formar às suas costas. Foi quando Elizabeth se lembra de ter começado a tremer. Com a majestosa fachada da escola à sua frente, ela ainda fez uma terceira tentativa de atravessar o bloqueio em outro ponto do cordão de isolamento.

Como pano de fundo, começou a ouvir invectivas de “Vamos linchá-la!”, “Dá o fora, macaca”, “Volta pro teu lugar”, frases proferidas por vozes adultas e jovens. Atordoada, dirigiu-se a uma senhorinha branca – a mãe lhe ensinara que em caso de apuro era melhor procurar ajuda entre idosos. A senhorinha, porém, lhe cuspiu no rosto.

Como não conseguisse chegar à escola, a adolescente então tomou duas decisões: não correr (temeu cair se o fizesse) e andar um quarteirão até o ponto de ônibus mais próximo. Um aglomerado de cidadãos brancos passou a seguir cada passo seu. Imediatamente às suas costas vinha um trio de adolescentes, alunas do colégio. Entre elas, Hazel Bryan.

“Vai pra casa, negona! Volta para a Á”– clic– “frica!” Segundo o autor do livro centrado no episódio, foi este o instante em que a câmera de Will Counts captou a imagem que se tornaria histórica.

Hazel, de quinze anos e meio, não carregava qualquer livro escolar. Apenas uma bolsa e um inexplicável jornal. Ela não planejara nada para aquela manhã. Vestira-se com o esmero que era sua marca – roupas e maquiagem ousadas para uma adolescente daquela época – e arvorou-se de audácia ao ver tantos fotógrafos e soldados da Guarda Nacional. Nada além disso. O resto pode ser debitado à formação que recebera em casa – família de origem rural, ideário fundamentalista cristão, atitude racial aprendida com o pai.

A foto que correu mundo e fez a alegria da União Soviética naquele auge da Guerra Fria é tudo, menos estática. Ela fala, grita, tem vida e movimento. Mostra Elizabeth num vestido de algodão feito em casa, estalando de branco, com um fichário e um livro apertados contra o peito e medo escondido por óculos escuros. Em meio à massa de brancos que a seguem, Hazel. Olhos e sobrancelhas franzidos, a boca aberta contorcida pelo ódio e pela raiva.

Foi assim que Elizabeth e Hazel se “encontraram” sem se conhecerem. E é o que as manteve ligadas, ora contra, ora por vontade própria, por mais de cinquenta anos.

Assim como Hazel se converteu na imagem oficial da intolerância, a caminhada solitária de Elizabeth virou bandeira para toda uma geração de atletas, advogados, professores negros decididos a não recuar. Décadas depois do episódio, Bill Clinton, que governou o mesmo Arkansas nos anos 80, admitiu o quanto a foto fez com que ele acertasse seu compasso moral.

Em seu livro sobre essas duas vidas, o jornalista David Margolick responde a todas as perguntas que a foto deixa suspensas, e vai além. Editor da revista Vanity Fair, ele já havia escrito Strange Fruit – The Biography of a Song, a canção que Billie Holiday imortalizou em 1939 e que já expunha o racismo e denunciava os linchamentos de negros.

O episódio daquela manhã de 1957 levou Little Rock à combustão e convenceu o presidente Dwight Eisenhower a enviar tropas da 101ª Divisão Aerotransportada para assegurar a integração escolar decidida três anos antes pela Suprema Corte. Ironicamente, Hazel e Elizabeth jamais chegaram a se cruzar nos corredores da Central High School, pois os pais da menina branca, assustados com a repercussão da foto, preferiram trocá-la de escola. Mas “Os Nove de Little Rock”, uma vez admitidos, viveram anos de pavor. Semana após semana, foram alvo de agressões – desde cusparadas a cacos de vidro no chão do chuveiro na hora do banho. Elizabeth, primeira a ser empurrada escadaria abaixo, só teve o rosto preservado por ter usado como escudo o mesmo arquivo que segura na foto.

Dali em diante, em plena era Kennedy dos anos 60, Hazel, a garota branca, seguiu seu destino. Abandonou o colégio, casou-se aos 17 anos, teve três filhos, morou em trailers, partiu de Little Rock e fez paradas temporárias em atividades tão distintas como apresentações de dança do ventre e trabalho voluntário junto a crianças carentes negras. De volta a Little Rock, despencou para perto da linha da pobreza e era vista como um fantasma a rondar o passado de violência da cidade. Decidiu então ir ao encontro de seu indesejado papel na história americana e embarcou em ações sociais e ativismo comunitário.

Elizabeth, enquanto isso, passou cinco anos servindo no Exército, mas conseguiu formar-se em história pela Universidade do Estado de Ohio. Mãe solteira de dois filhos e recorrendo ao auxílio-desemprego nos anos 80, beirou a depressão. Um de seus filhos, também depressivo, acabou sendo morto por um policial ao sair dando tiros pela rua.

Somenteem 1997 as duas mulheres, então com 55 anos de idade, se encontraram de verdade. A ocasião foi um evento, com novo espocar de flashes e publicidade: o 40º aniversário da fatídica manhã de 4 de setembro de 1957. Várias décadas antes, Hazel conseguira localizar Elizabeth pela lista telefônica, tomou coragem e discou o número para pedir desculpas. Elas foram aceitas sem, contudo, entreabrir qualquer contato pessoal.

Foi por ocasião do evento comemorativo de 1997 que as duas mulheres estabeleceram um tênue laço. Participaram de um seminário sobre questões raciais, deram palestras, foram entrevistadas por Oprah Winfrey. Chegaram a cogitar escrever um livro a quatro mãos. E posaram também, desta vez lado a lado, para nova foto feita pelo mesmo Will Counts. Nela, as duas aparecem sorrindo em frente ao portal da Central High School, e a imagem acabou sendo transformada num pôster intitulado “Reconciliação”. E quando a sessão de fotos se encerrou, com ambas já fora de enquadramento, as duas mulheres iniciaram uma tentativa de amizade.

À medida que Elizabeth foi ganhando em autoestima, porém, ela voltou a tomar distância de Hazel. A bordo do cargo de oficial de justiça e agraciada com uma Medalha de Ouro do Congresso, ela foi se tornando mais exigente, mais crítica, menos disposta a oferecer perdão em nome de um final feliz. Desconfianças antigas reemergiram e quando o episódio completou meio século, em 2007, a relação tinha azedado de vez. Naquele ano, Elizabeth acusou Hazel de se esconder atrás de uma confortável amnésia sobre o incidente – ela havia descoberto que a adolescente branca mantivera contato o tempo todo com os alunos da escola que infernizaram a vida dos nove negros, e que Hazel fazia parte de um grupo organizado que os atacava fisicamente.

Hazel, por seu lado, mantém até hoje que naquela manhã de 54 anos atrás ela não pestanejou nem se sentiu mal. Para o autor de Two Women [Duas Mulheres], em momento algum ela achou ter feito algo errado. Ou inusitado. Ou que marcaria a sua vida para sempre. Ela estava apenas traduzindo o que ouvira em casa durante quinze anos.

Ambas chegam à terceira idade cansadas de dar palestras e entrevistas que apenas reavivaram ressentimentos e frustração – Hazel diz que não aguenta mais pedir desculpas; Elizabeth sustenta que sua nêmesis, no fundo, sequer sabe do que está se desculpando. “Elizabeth só então se deu conta do quanto de amargura carregava no peito, e o quanto de raiva e ódio a haviam paralisado”, escreveu Margolick. E conclui: “Ela sempre teve melhor formação e foi mais intelectualizada do que Hazel, mas Hazel acabou mais bem ajustada no seu entorno social.”

Segundo o autor, novas barreiras substituíram as antigas e o embrião de amizade acabou sendo solapado pelas mesmas fissuras e incompreensões que continuam a permear as relações raciais nos Estados Unidos. Margolick vai além do simples acompanhamento das duas mulheres idade adentro. Ele amplia a narrativa, torna-a mais complexa. As vidas entrelaçadas de Elizabeth e Hazel servem de metáfora para o país, sem soluções fáceis para um impasse moral dessa grandeza.

Elizabeth nãose dispôs a entrar na Central High School em 1957 para fazer amizades. Ela sentou nos bancos da escola segregada para quebrar as barreiras legais e institucionais que negavam aos negros americanos oportunidades iguais. Hoje, as barreiras legais não mais existem. Mas a cor da pele ainda marca bairros, igrejas, prisões e também escolas nos Estados Unidos. Em 2007, meio século depois que Elizabeth e Hazel protagonizaram o “momento decisivo” captado em foto, 40% das crianças negras americanas ainda frequentavam escolas quase totalmente segregadas.

Esse texto foi ecrito por Dorrit Harazim e veiculado na Revista Piauí em novembro de dois mil e onze, mais especificamente, volume sessenta e dois.
A foto que circulou o mundo e serviu como pano de fundo para o texto é de Will Counts, tirada em 1957.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Leiamos imagens [3]

"Russian Troops Awaiting A German Attack"





Foto tirada em 1917 e publicada na revista National Geographic do mesmo ano, mais especificamente, volume trinta e um.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Leiamos o poema e a música [2]

Gênesis

Quando ele nasceu foi no sufoco
Tinha uma vaca, um burro e um louco
Que recebeu Seu Sete

Quando ele nasceu foi de teimoso
Com a manha e a baba do tinhoso
Chovia canivete

Quando ele nasceu nasceu de birra
Barro ao invés de incenso e mirra
Cordão cortado com gilete

Quando ele nasceu sacaram o berro
Meteram faca, ergueram ferro
Exu falou: ninguém se mete!

Quando ele nasceu tomaram cana
Um partideiro puxou samba
Oxum falou: esse promete!




O poema Gênesis foi escrito por Aldir Blanc e pode ser lido em Veneno Antimonotonia, organizado por Eucanaã Ferraz, publicado pela editora Objetiva em 2005.
A música Gênesis (parto) foi feita por Aldir Blanc e João Bosco e pode ser ouvida em Tiro de Misericórdia, álbum de 1977.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Leiamos textos literários [2]

Cano alto

Caminhando os 50 metros do carro ao restaurante, me senti estranhamente calmo: ia tranquilo, pisando firme, os braços não sobravam, tais quais duas trombas inúteis a balançar ao lado do corpo, como tantas vezes acontece. Entrei na cantina de cabeça erguida, sentei-me próximo à janela e foi só então, ao cruzar as pernas, que descobri a origem de minha segurança: os tênis de cano alto.

Passei a infância inteira de galochas. Fizesse chuva ou sol: moletom e galochas, shorts e galochas, sunga e galochas. Botas, afinal, eram a única peça da indumentária de super-herói que você podia vestir sem estar fantasiado e calçá-las era como ter consigo o cinto de utilidades do Batman, o escudo do Capitão América ou, escondida num frasco, para qualquer eventualidade, a poção mágica de Panoramix. Talvez venha daí a conexão entre a firmeza dos tornozelos e a contenteza do espírito.

Talvez tenha surgido mais tarde. No final dos anos 80, houve uma revolução no estilo dos tênis. Os Kichutes, Bambas e All Stars de lona foram solapados por rechonchudos Nikes, Reeboks ou Ponys. Os modelos mais legais, de cano alto, eram feitos para se jogar basquete; aos meus olhos, contudo, pareciam ter sido fabricados para andar por Marte, com traje espacial. Por anos cobicei um daqueles pares, mas meus pais não me davam. Até que, na sétima série, troquei com um colega de classe um relógio Casio, em bom estado, por um Pony de cano alto, em farrapos -o pé esquerdo todo remendado com silver tape, partes do couro retocadas com Liquid Paper...

À boca miúda, correu pela 7ªB a opinião de que eu havia feito um péssimo negócio. Eu sabia que, financeiramente, não havia sido uma boa troca, mas quem liga para finanças na sétima série? Ainda mais com um Pony de cano alto nos pés? Aquele tênis trazia de volta a fortaleza das galochas e, ao mesmo tempo, me oferecia o ticket de entrada para uma nova fase: era minha primeira peça da indumentária adolescente. Foi seu cano alto, aliás, que sustentou as pernas bambas, no ano seguinte, quando, numa escada pouco iluminada da escola, durante o recreio, dei meu primeiro beijo.

Então veio o colegial: Sex Pistols, Mano Brown e Drummond fizeram-me ver nos tênis importados a submissão ao materialismo e ao imperialismo ianque. Mesmo que, de lá pra cá, eu tenha me rendido em muitas áreas ao materialismo e ao imperialismo ianque, passaram-se 20 anos sem que amarrasse um cadarço acima do tornozelo.

No último domingo, contudo, estava no shopping trocando um presente de Natal e vi numa vitrine o par de Vans. Trata-se de um tênis de skatista, de cano alto, que desejei imensamente entre os 10 e os 14 anos. Não é espalhafatoso como os modelos de basquete, mas tampouco tem a neutralidade pseudoarrojada de um sapatênis. Ainda não sei se usá-los remete-me à infância ou se é o primeiro passo no caminho sem volta de juvenilização do vestuário (vírus que se manifesta principalmente em homens, em torno dos 35 anos). O que sei é que, com eles nos pés, vou tranquilo, piso com firmeza e os braços não sobram, tais quais duas trombas inúteis, a balançar ao lado do corpo. Cano alto. Que saudades.

Antonio Prata

Folha de S. Paulo - Cotidiano - São Paulo, sexta-feira, 18 de janeiro de 2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Leiamos imagens [2]

"No fim, fratura exposta"



Foto tirada por Álvaro da Costa em 07/12/1980. Foi veiculada na Folha de S. Paulo e ganhou o Prêmio Esso de Fotografia de 1981. Leiamos em referência a final da 43ª edição da Copa São Paulo de Futebol Júnior, disputada essa quarta-feira (25/01) entre Corinthians e Fluminense, os dois maiores vencedores do campeonato.

domingo, 22 de janeiro de 2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Leiamos o poema e a música [1]

Por que você faz cinema?

Para chatear os imbecis / Para não ser aplaudido depois de seqüências dó-de-peito / Para viver à beira do abismo / Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público / Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem / Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo / Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena / Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito / Porque vi Simão no Deserto / Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema / Para ser lesado em meus direitos autorais.

Joaquim Pedro de Andrade
Publicado em Pourquoi filmez-vous? / Libération / Paris / maio de 1987



Adriana Calcanhotto musicou "Por que você faz cinema?" em "A Fábrica Do Poema" de 1994.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Leiamos textos literários [1]

A covardia do comandante Schettino nos envergonha de nós mesmos

"O covarde morre mil vezes, o corajoso, uma vez só" é a frase com a qual Julio César se despede da mulher, Calpúrnia, quando ela tenta convencê-lo a não ir para o Capitólio no dia em que ele será assassinado. Isso, segundo Shakespeare.

A frase significa que o covarde teme por sua vida. Isso é o que o define: ele enxergará mil vezes a possibilidade de sua morte, antes de esbarrar nela de fato. O corajoso só se preocupará quando for mesmo a hora.

A frase de Hamlet, segundo a qual a consciência nos torna covardes, não se afasta muito da de César: ser corajoso seria agir por alguma razão mais importante do que a própria fantasia do que nos espera depois da morte.

Duas observações:

Primeiro: é provável que o corajoso receie perder a vida tanto quanto o covarde, mas aja apesar desse medo -porque, para ele, algo é mais importante do que sobreviver. Citação por citação, Catherine, em "Adeus às Armas", de Hemingway, propõe uma resposta à frase de Júlio César: "O corajoso, se for inteligente, talvez morra 2.000 vezes. Só que ele não vai mencionar nenhuma delas".

Segundo: aparentemente, saber o que é um covarde se torna, na modernidade, questão crucial. Por que será?

Nós, modernos, passamos a prezar singularmente nossa sobrevivência. Mesmo quando acreditamos no além, achamos que o término de nossa vida terrena é o fim de tudo o que importa.

Tanto faz que nossas ideias triunfem, nada compensa o fim de nossa existência -salvo, em parte, nossas crianças, que amamos selvagemente por serem nossa única esperança de certa continuação.

Em suma, inelutavelmente, por prezarmos tanto nossa vida individual, temos uma predisposição cultural à covardia, pois não há nada, em tese, cuja sobrevivência nos importe mais do que a nossa. A vantagem dessa covardia cultural é que ela nos dá o tempo necessário para pensar e pesar as causas pelas quais poderíamos nos arriscar a perder a vida.

O resultado é positivo, à primeira vista: covarde, para nós, hoje, é quem foge de um perigo que a maioria consideraria justo correr. Ou seja, nossa covardia cultural faz com que nos engajemos de maneira seletiva.

Por exemplo, os pacifistas que se recusavam a servir no Exército dos EUA durante a Guerra do Vietnã não pareciam ser covardes; numa guerra justa, como a Segunda Guerra Mundial, eles teriam servido com gosto.

Obviamente, essa não era a opinião de muitos psiquiatras do Exército e da Marinha dos EUA, os quais achavam que o pacifismo de grande parte desses recrutas, quando não era mentira, era formação reativa -um jeito de racionalizar com belas palavras seu medo de arriscar a vida pelo seu país.

A verdade está sempre no meio: devia haver, no lote, pacifistas e bundas moles.

Mas vamos ao capitão Schettino, do Costa Concordia. Ele é objeto de execração porque seu comportamento retrata um traço cultural que todos compartilhamos.

Schettino colocou sua própria vida acima da vida de sua tripulação e de seus passageiros, assim como acima do código de honra da marinha -nisso, ele encarnou o espírito dos nossos tempos e, literalmente, ele nos envergonha de nós mesmos.

A frase do comandante De Falco, da capitania do porto de Livorno, "Vá a bordo, caralho", parece expressar a vontade de termos todos um De Falco que nos fale e nos lembre de que talvez haja, às vezes, algo mais importante do que a nossa pele.

Suspeito que Schettino seja especialmente detestado porque ele desperdiçou uma excelente e fácil ocasião para sair de herói na foto, sem grande custo (e para compensar assim sua incompetência, responsável pelo naufrágio).

Schettino não corria risco de vida. No pior dos casos, seria o último a cair no mar. E daí? Por frio que seja o Tirreno no inverno, um nadador medíocre chegaria tranquilamente à costa da ilha de Giglio.

Ora, na conversa telefônica com De Falco, Schettino responde à ordem de voltar a bordo (de onde nunca deveria ter saído), com esta explicação: "Mas aqui está tudo escuro". De Falco rebate debochando daquele medo infantil: "O que é, Schettino, está tudo escuro, e você está a fim de voltar para casa?".

Na conversa, essa é a parte "pior". Tudo bem, Schettino não colocou nada acima de sua própria vida, não "cresceu" na circunstância, mas, além disso, ele encolheu -ficou esperando que um adulto o pegasse pela mão e o tirasse do escuro.

Imagino o sentimento dos italianos: numa época em que precisamos tanto de liderança, será que nossos "capitães" são todos Schettinos? Ninguém consegue ser o adulto com quem podemos contar no escuro e no perigo?

Segundo Hegel, a origem da liderança está na coragem de colocar a vida em risco. Quem se expõe à possibilidade de morrer se torna mestre. E os outros, os que preferem preservar sua vida, escravos.

Os escravos, como Hegel previa, tomaram conta da terra, e é ótimo que assim seja. Mas resta a sensação bizarra de que não haja mais ninguém como o mestre antigo, ninguém disposto a encarar a morte -para nos defender, por exemplo.

Contardo Calligaris

Folha de S. Paulo - Mundo - São Paulo, sexta-feira, 20 de janeiro de 2012